Gigantes tecnológicos na mira do TJUE
JUSTIN TALLIS
Nesta terça-feira (10), a União Europeia obteve duas importantes vitórias jurídicas contra os gigantes da tecnologia Apple e Google, em disputas decididas pelo Tribunal de Justiça da UE (TJUE), a mais alta corte do bloco.
É uma “grande vitória para os europeus e para a justiça fiscal”, celebrou a comissária europeia da Concorrência, Margrethe Vestager, referindo-se às decisões.
Num deles, o TJUE decidiu que a gigante americana Apple beneficiou entre 1991 e 2014 de ajuda ilegal da Irlanda, país que deve agora recuperar um montante de cerca de 13 mil milhões de euros (80 mil milhões de reais).
“O Tribunal de Justiça resolve definitivamente o litígio e confirma a decisão da Comissão Europeia em 2016: a Irlanda concedeu à Apple auxílio ilegal que o Estado deve recuperar”, afirma a decisão.
– “Romance” –
A Comissão concluiu em 2016 que a Irlanda permitiu à Apple pagar um imposto de 1% sobre os seus lucros europeus em 2003, uma taxa reduzida em 2014 para 0,005%.
Para Chiara Putaturo, especialista da ONG humanitária OXFAM, a decisão do TJUE destaca “a história de amor entre paraísos fiscais e [empresas] multinacionais”.
A decisão, acrescentou ele, “impõe justiça depois de mais de uma década em que a Irlanda permitiu que a Apple evitasse impostos”.
Num comunicado oficial, o governo irlandês afirmou que “obviamente respeita a decisão do Tribunal sobre os impostos devidos neste caso”.
“O processo de transferência dos activos (…) para a Irlanda vai começar agora”, refere o comunicado.
Em outra decisão divulgada nesta terça-feira, o TJUE ratificou uma multa decidida pelo Tribunal Geral do bloco (TGUE, tribunal de primeira instância) ao Google no valor de 2,4 bilhões de euros (mais de 14,5 bilhões de reais).
A Alphabet, empresa-mãe da Google, recorreu desta decisão, alegando erro de análise por parte da Comissão.
O TJUE rejeitou o recurso e confirmou a multa, considerando que a empresa norte-americana “abusou da sua posição dominante ao favorecer os seus próprios serviços”.
O Google enfrenta outro teste na próxima semana, quando o tribunal superior da UE decidirá sobre uma multa de cerca de 1,49 bilhão de euros (8,9 bilhões de reais).
– Google na mira –
Estas decisões do TJUE enviam uma mensagem forte ao setor, uma vez que a UE foi derrotada em disputas semelhantes com a Amazon e a Starbucks.
Em particular, as sentenças constituem um forte apoio a Vestager, que se prepara para renunciar na redefinição da nova Comissão Europeia.
A assessoria de imprensa do Google manifestou esta terça-feira a sua insatisfação. “Estamos decepcionados com a decisão do Tribunal”, disse ele em comunicado.
No caso da Google, os reguladores europeus estão de olho no seu serviço de publicidade, devido a suspeitas de abuso de posição dominante, objecto de uma investigação já lançada no Reino Unido.
Após uma investigação preliminar realizada em 2023, a Comissão acusou o Google de abusar da sua posição dominante, ao ponto de recomendar à empresa que vendesse o serviço para garantir uma concorrência leal.
Em janeiro, a procuradora-geral do TJUE, Juliana Kokott, propôs a revalidação da sanção contra o Google.
Em 2028, a UE já havia multado o Google em 4,3 bilhões de euros (26 bilhões de reais) por abuso de posição dominante com o sistema operacional Android em celulares.
O Google também é alvo de investigação nos Estados Unidos, por suspeita de esmagar a concorrência no segmento de publicidade online.