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Delfim Neto
Antônio Delfim Netto (1928-2024) com seu mentor Pacaembu: atividade até o fim da vida (foto: Getty Images)
O economista Antônio Delfim Netto morreu na madrugada desta segunda-feira (12) em São Paulo, aos 96 anos. Ele estava internado em Israel há uma semana no Albert Einstein. A causa da morte não foi divulgada. Segundo a assessoria de imprensa de Delfim Netto, ele morreu devido a “problemas na vida”.
Durante sua longa carreira, Delfim Netto foi Ministro da Fazenda e do Planejamento no auge da ditadura militar. Foi embaixador do Brasil na França e foi eleito para cinco mandatos como deputado do governo após o golpe de Estado.
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Foi o criador do chamado “milagre económico”, período de rápido crescimento económico na década de 1970, baseado na atração de capital estrangeiro e de pesado capital nacional. As taxas de crescimento registradas na época eram superiores a 9% ao ano.
Foi uma época de grandes obras como a Ponte Rio-Niterói e a Transamazônica, além de usinas nucleares. Delfim também ficou conhecido por ser um dos signatários da Lei Institucional nº. 5 (AI-5), de dezembro de 1968, que endureceu o regime militar e permitiu a perseguição aos adversários políticos do governo.
Assim que assumiu o cargo, no governo de Arthur da Costa e Silva (1966-1969), Delfim anunciou uma lista e reduziu os juros e ampliou o crédito para combater a inflação e acelerar o crescimento. Também aumentou os gastos públicos e incentivou o investimento privado na indústria. Delfim permaneceria no cargo até 1974, ao final do governo de Emílio Garrastazu Médici.
Apelidado de “czar econômico”, Delfim aproveitou medidas singulares para governar a economia. “Utilizei as condições fornecidas pelo AI-5 para emitir legislação sobre quase todas as alterações tributárias que queria fazer e outras medidas importantes”, disse ele durante uma entrevista em 1998.
Após a democratização, Delfim reformou-se. Ele disse que houve três deles durante sua vida: o primeiro, um socialista fabiano, que defendia reformas e ações pacíficas para alcançar o socialismo. O segundo é um poderoso ministro do regime militar. E terceiro, o que contribuiu para as políticas públicas dos dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).
Um caminho
Antônio Delfim Neto teve um começo humilde. Nasceu no bairro operário paulista do Cambuci, em 1º de maio de 1928, filho de imigrantes italianos, motorista de bonde da CMTC e alfaiate. Devido a um erro administrativo durante a migração, o nome da Delfini mudou para Delfim.
Perdeu o pai cedo e por isso começou a trabalhar aos 14 anos como zelador (ou mensageiro) da Unilever do Brasil, então chamada Gessy Lever. A mãe viúva insistiu que o menino trabalhasse na escola. Estudou contabilidade e pensou em se tornar engenheiro. Mas esse curso demorou muito e eu precisava terminar rápido para ganhar a vida. Acabei sendo economista”, disse em entrevista.
O recém-criado Departamento de Economia da Universidade de São Paulo realizou um exame rigoroso, que incluiu provas orais. A chefe do corpo docente, professora Alice Piffer Canabrava (1911-2003), quase foi derrotada por uma candidata mais jovem. Ele disse: “Você não entende nada de economia, mas vou deixar porque você sabe matemática”.
Após concluir o curso em 1948, passou a trabalhar como escriturário no DER (Departamento de Estradas de Rodagem). Graduou-se em 1951 e logo se tornou professor assistente. Entre 1952 e 1959 foi professor de estatística econômica. Com a tese “O Problema do Café no Brasil”, em 1958 se tornaria professor titular (ou catedrático, como diziam na época) de economia do Brasil.
Em 1966 teria seu primeiro cargo público. Laudo Natel, governador eleito do Estado de São Paulo, procurou um “matemático” na USP para a Secretaria da Fazenda. Delfim foi o escolhido. Além de suas habilidades técnicas, ele era experiente e tinha um grande senso de humor.
O trabalho em São Paulo o tornou visível. Em 1967, aos 38 anos, tornou-se o mais jovem Ministro das Finanças da história. Assumiu a profissão durante o governo Costa e Silva e deixou-a apenas em 1974, no final do governo Médici. Ele controlaria a economia durante 13 dos 21 anos de ditadura.
O crescimento económico baseou-se no capital estrangeiro. No início da década de 1980, o aumento das taxas de juro nos Estados Unidos levaria a uma crise da dívida. Delfim liderou as drásticas medidas de reforma, que levariam a uma grande recessão entre 1982 e 1983.
Redemocratização
Depois de liderar a campanha vitoriosa de Jânio Quadros para prefeito de São Paulo em 1985, Delfim foi eleito deputado estadual em 1986 pelo PDS, o partido estadual. Nessa altura, defendeu duas eleições e eleições distritais. Até 2007, passaria pelos governos de Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula em cinco mandatos consecutivos pelos partidos PDS, PPR, PPB, PP e PMDB.
Criticou o governo Sarney e o projeto Cruzado. Em 1992, votou a favor da abertura do processo de impeachment contra o presidente Collor. Durante o governo Itamar, o lançamento do plano Real foi considerado uma eleição. A princípio elogiou a política privada de FHC, mas criticou a política de juros altos e chamou o tucano de “O Exterminador do Agora”.
Também manteve estreita relação com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, embora tenha filiado ao Partido Progressista (PP) e ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), então conhecido como PMDB. Na década de 70, foi embaixador do Brasil na França por três anos.
Vida pessoal
Leitor ávido, Delfim possuía uma biblioteca com 250 mil livros. Ele deu tudo para a USP em 2011. “Estou velho e a USP vai durar mais que eu”, disse.
Delfim foi um letrista prolífico e conhecido por seu humor cáustico. “A dívida não pode ser paga, deve ser administrada”, disse. No entanto, sempre negou ser o autor da frase que se diz ser sua: “Primeiro é preciso levantar o bolo, depois repartir”.
De olhos vermelhos, baixo e gordo, Delfim era presa fácil para os cartunistas. Ele abordou o assunto com bom humor. Desde 1967, coleciona caricaturas que o representam e guarda algumas na parede de seu consultório, numa casa no bairro do Pacaembu, em São Paulo.
Foi casado com Mercedes Saporski Delfim, falecida em 19 de maio de 2011, aos 93 anos. Teve uma filha, Fabiana Delfim, e um neto, Rafael.
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