O economista francês Gabriel Zucman posa durante uma sessão de fotos em Paris em 12 de junho de 2024
JOEL SAGET
Se a ideia de tributar os super-ricos avançar apesar dos obstáculos, Gabriel Zucman terá um papel nisso. O economista francês trabalha nos bastidores para que esta reforma se concretize.
Depois de ter sido convidado em fevereiro pelo Brasil, que preside o G20 este ano, para apresentar suas ideias aos ministros da Fazenda deste fórum internacional, Zucman publicou em junho um relatório sobre o tema, também a pedido do governo brasileiro.
E nesta quinta-feira (25), os responsáveis pelas principais economias do mundo, reunidos no Rio de Janeiro, realizarão uma sessão dedicada a esse delicado tema.
Com uma aparência jovem, este homem de 37 anos, pai de dois filhos (e em breve três), descreve-se à AFP como “um filho da crise financeira”, que deu os primeiros passos profissionais aos 21 anos no empresa de investimentos Exane escrevendo relatórios.
“Comecei no dia da falência do Lehman Brothers (em 2008). O trabalho consistia em explicar a economia mundial, mas percebi que era impossível compreendê-la sem a perspectiva necessária”, recorda este graduado da Escola de Economia de Paris. e a École Normale Superior de Paris-Saclay, que também tem nacionalidade americana.
O economista mergulhou então nas estatísticas internacionais e examinou os paraísos fiscais. O resultado foi “A Riqueza Oculta das Nações”, a sua tese que avalia a magnitude da evasão fiscal, publicada em 2013 antes de ser traduzida para quase 20 línguas.
“A contribuição específica de Zucman (…) é que, pela primeira vez, ele encontrou um método muito original para calcular a evasão fiscal em paraísos fiscais”, explica o historiador Pierre Rosanvallon, que editou a obra.
– “Organizando a globalização” –
Embora o sistema financeiro ainda seja permeável a fraudes, muitos avanços foram alcançados em termos de transparência, fruto de anos de negociações internacionais, comemora Zucman.
Este filho de médicos parisienses e amante do piano, instrumento que toca desde os quatro anos, está otimista: “Existem mil maneiras de organizar a globalização”.
Seu trabalho tem se concentrado na tributação de famílias e empresas ricas, tema abordado no livro “O Triunfo da Injustiça”.
Zucman, que divide o seu tempo entre o Observatório Fiscal da União Europeia em Paris, órgão que dirige, e a Universidade de Berkeley, na Califórnia, aborda o caso dos Estados Unidos juntamente com o seu colega Emmanuel Saez.
De acordo com o seu trabalho, a taxa de imposto sobre a riqueza dos bilionários é de 0,3% em todo o mundo.
Ele defende um imposto mínimo global com uma proposta: tributar o equivalente a 2% da fortuna de cerca de 3 mil multimilionários, o que se traduziria em cerca de 250 bilhões de dólares (R$ 1,41 trilhão) por ano.
“A evolução rápida é possível”, quer acreditar, opondo-se aos “discursos derrotistas”.
Segundo o seu orientador de tese, o economista Thomas Piketty, o simples facto de esta questão estar na mesa das negociações internacionais é uma vitória.
“Quando propus, há dez anos, em ‘O Capital no Século 21’, a criação de um imposto global sobre a riqueza, estava longe de imaginar que isso chegaria hoje à agenda oficial do G20”, disse Piketty, cujo trabalho alcançou sucesso público, à AFP. e ampla ressonância política.
“Isso se deve em grande parte à energia incansável de Gabriel Zucman, à sua impressionante capacidade de trabalho e ao seu rigor incomparável”, acrescenta.
– Prêmio –
Mas ainda há um longo caminho a percorrer: Brasil, África do Sul, Espanha, Colômbia, França e União Africana apoiam a ideia, mas Washington e Berlim resistem.
“Não devemos subestimar a resistência dos contribuintes envolvidos”, dizem também aqueles que aconselharam os candidatos democratas Elizabeth Warren e Bernie Sanders nas eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2020.
Com Thomas Piketty, Esther Duflo e Emmanuel Saez, Zucman juntou-se ao clube de economistas franceses reconhecidos nos Estados Unidos, especialmente depois de receber em 2023 a Medalha Bates Clark, um prestigiado prémio económico.
Um prémio “polêmico”, considerou-o a revista The Economist, lembrando que alguns dos seus colegas questionaram os métodos que utilizou para medir as desigualdades.