Matthew Perry em 17 de novembro de 2022
Phillip Faraone
A morte do astro de “Friends”, Matthew Perry, e as prisões desta semana destacam mais uma vez o relacionamento controverso que algumas estrelas de Hollywood têm com médicos encarregados de controlar seus vícios.
O ator, que interpretou o personagem Chandler na série, tornou pública sua longa luta contra o vício. Perry morreu de overdose de cetamina em sua banheira de hidromassagem em outubro de 2023, aos 54 anos.
Esse anestésico, por vezes utilizado para fins estimulantes, foi ingerido pelo ator sob supervisão médica, como parte de sessões de terapia contra a depressão.
Ao ter o aumento da dosagem negado, o humorista voltou ao vício, segundo o Ministério Público, e procurou traficantes e médicos aderentes para obter a substância.
A sua morte envolve dois médicos “sem escrúpulos”, segundo Anne Milgram, da DEA, agência federal antidrogas dos Estados Unidos, que denunciou “a exploração” do ator por Salvador Plasencia e Mark Chavez.
O caso lembra o do médico de Michael Jackson, que foi condenado em 2011 por homicídio culposo, após administrar ao “Rei do Pop” uma dose fatal de um poderoso anestésico cirúrgico.
– “Armadilha”-
Elvis Presley, Marilyn Monroe e Prince também morreram após consumirem substâncias lícitas obtidas através de profissionais de saúde.
“As regras se diluem com celebridades e isso leva constantemente a tragédias”, explicou à AFP Harry Nelson, advogado especializado em saúde de Los Angeles.
No caso de Perry, o Dr. Plasencia adquiriu cetamina com seu colega Chávez, segundo a Promotoria. As garrafas, que custaram 12 dólares (R$ 65,6 na cotação atual), chegaram ao ator por 2 mil dólares (R$ 10,9 mil).
“Eu me pergunto quanto esse idiota vai pagar”, disse Plasencia em setembro de 2023 em uma mensagem de texto sobre uma transação que iria fazer com Perry, segundo informações coletadas pelos investigadores.
A situação às vezes é complicada, segundo Nelson.
As estrelas precisam proteger suas vidas privadas, e ir ao médico para obter uma receita e depois à farmácia para comprar medicamentos é impensável quando você está constantemente sob o olhar dos paparazzi.
Alguns médicos se deixam levar pelo “glamour” de um relacionamento com um paciente famoso, que pode ser muito exigente. E às vezes cedem às suas exigências de “manter um bom relacionamento”, mesmo que isso vá contra a ética profissional, acrescentou o especialista.
“Mas é uma armadilha” tanto para o “paciente famoso quanto para o médico”, disse Nelson, que esteve envolvido em uma dúzia de casos trágicos envolvendo estrelas.
A cetamina é cada vez mais usada legalmente para tratar a depressão e o transtorno de estresse pós-traumático. A Califórnia tem clínicas privadas com honorários extravagantes e clientes renomados, lembra o advogado.
Esta substância só pode ser administrada, em princípio, sob supervisão médica, devido ao risco de efeitos secundários: perda de consciência ou problemas respiratórios, entre outros.