Após sessão marcada por turbulência, a CCJ da Câmara encerrou os trabalhos sem considerar o polêmico projeto de lei que, se aprovado, poderá indultar apoiadores de Bolsonaro envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. A proposta foi o único item da reunião do colegiado convocada para esta terça-feira, dia 10.
O projeto também modifica as regras de julgamento de pessoas comuns em casos envolvendo pessoas com foro privilegiado e os critérios para enquadrar alguém no crime de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito.
Prevê também que as condenações por este delito não podem basear-se nos chamados crimes numerosos (aquelas cometidas em grupo, quando todos contribuem para o resultado por meio de ações conjuntas), tese utilizada pelo Supremo Tribunal Federal para condenar os envolvidos em ataques antidemocráticos.
Uma nova reunião na CCJ estava marcada para esta quarta-feira, 11, mas a pauta publicada até o fechamento desta reportagem não apresentava o PL da Anistia. A expectativa, afirmou a presidente da comissão, Caroline de Toni (PL-SC), é que o texto seja incluído como “item extra da ordem do dia” da reunião.
O relator, deputado Rodrigo Valadares (União-SE), apresentou parecer favorável à proposta no sistema da Câmara, mas não leu o documento durante a sessão. Ele analisou sete projetos que tratam do mesmo assunto e sugeriu perdão para todos os atos passados e futuros relacionados à invasão e a depredação das sedes dos Três Poderes.
Após a leitura do relatório, espera-se um pedido de revisão (mais tempo para análise) dos deputados do governo. Com isso, o texto só voltaria à discussão no colegiado após o primeiro turno das eleições municipais.
Segundo as regras do substitutivo, todos aqueles que “participaram em manifestações com motivação política e/ou eleitoral, ou as apoiaram, por qualquer meio, incluindo contribuições, doações, apoio logístico ou prestação de serviços e publicações nas redes sociais” entre janeiro 8 e a data de entrada em vigor da lei seriam beneficiadas.
O indulto previsto no projeto, segundo Valadares, abrange qualquer medida de “restrição de direitos, inclusive aquelas impostas por liminares, medidas cautelares e sentenças transitadas em julgado que limitem a liberdade de expressão e manifestação de natureza política e/ou eleitoral, em os meios de comunicação social, plataformas e mídias sociais”.
O relatório também inclui a previsão de criminalizar ministros do STF por abuso de autoridade caso a lei não seja cumprida. Tortura, tráfico de drogas, terrorismo e crimes contra a vida não seriam contemplados, segundo o texto.
Na justificativa, o relator diz não concordar com a depredação de prédios públicos em Brasília, mas afirma que a forma como ocorreram as prisões chama sua atenção por “desrespeitar os princípios da presunção de inocência, da individualização da pena e da direito a um procedimento contraditório”.
Valadares afirmou que os bolsonaristas que invadiram prédios públicos “agiam em ‘efeito manada’, pois não sabiam se expressar”. Ele também argumentou que os envolvidos no 8 de janeiro são punidos por “representarem o ideal de oposição ao governo Lula”.
A anistia aos envolvidos em atos antidemocráticos é uma das principais palavras de ordem da oposição na Câmara, que se mobilizou nos últimos dias para evitar o esvaziamento da CCJ e garantir o andamento do projeto antes das eleições municipais.
Uma das manobras envolveu a troca de deputados do PP e PL que integravam a comissão para aprovar o texto com pontuação mais folgada. As articulações ainda têm como pano de fundo a sucessão de Arthur Lira (PP-AL). O presidente da Câmara não pode ser reeleito para um novo mandato e, por isso, tenta angariar apoio para o seu candidato.
Por outro lado, os líderes do governo orientaram os parlamentares da base a não registrarem presença, na tentativa de frustrar o início da discussão sobre o assunto. Os deputados do governo apresentaram ainda três pedidos com o objetivo de adiar a análise do projeto, sem sucesso.
Depois de aprovado pela CCJ, o texto será analisado pelo plenário da Câmara. Posteriormente, deverá ser referendado pelos senadores antes de ser sancionado ou vetado pelo Presidente da República.